20 de abril de 2011
imunização na rede pública evita cerca de 130 mil internações de menores de 5 anos
três anos de vacinação contra rotavírus diminuíram em 22% o número de mortes de crianças com menos de 5 anos por diarreia grave no país. internações pelo problema caíram 17% no período. em valores absolutos, o programa evitou a internação de 130 mil crianças e a morte de 1,5 mil.

é o que mostra um estudo publicado na plos medicine, o primeiro a avaliar o impacto da imunização contra rotavírus em um cenário de "mundo real", fora do contexto dos testes clínicos.
no trabalho, os pesquisadores compararam dados de internação e mortalidade nos três anos seguintes à inclusão da vacina - de 2007 a 2009 - com os anos anteriores à adoção do imunizante - de 2002 a 2005.
o brasil foi o primeiro país a incluir a vacina no seu calendário nacional de imunizações, em 2006. à época, vários pediatras brasileiros consideraram temerária a decisão.
em 1998, havia sido licenciada a primeira vacina contra rotavírus nos estados unidos. um ano depois, ela foi suspensa, pois aumentava a ocorrência de obstruções intestinais, quadro clínico grave, em crianças que receberam a vacina após os seis primeiros meses de vida.
"com o trauma, as exigências de segurança cresceram muito", recorda o virologista eduardo volotão, do laboratório de virologia comparada e ambiental do instituto oswaldo cruz (ioc-fiocruz). "o fda (agência americana de vigilância sanitária) só aprovou uma nova vacina contra rotavírus dez anos depois."
trauma. em boa medida, o estudo da plos medicine coroa os esforços para superar o trauma da vacina de 1998, comprovando que a imunização contra o rotavírus realmente diminui a mortalidade infantil. assinam o trabalho estudiosos do ministério da saúde, da organização pan-americana de saúde (opas) e do centro de controle de doenças (cdc, na sigla em inglês), nos estados unidos.
a vacina aprovada pelo fda em 2008 é a rotarix, da gsk bio, a mesma usada pelo governo brasileiro desde 2006. ela é monovalente, ou seja, funciona para um único sorotipo do vírus: o g1. contudo, testes apontam que há proteção cruzada para outros sorotipos, como o g3, o g4 e o g9.
em 2008, bio-manguinhos assinou um contrato de transferência de tecnologia com a gsk bio. em tese, o país produzirá sua própria vacina a partir de 2013. até lá, comprará o produto da farmacêutica britânica. cada dose custa us$ 7 (cerca de r$ 11). são necessárias duas doses para conferir proteção contra a doença.
outros fornecedores. no mercado, há também uma vacina pentavalente (para cinco sorotipos do vírus) chamada rotateq, produzida pela merck.
na rede pública, qualquer criança pode receber a rotarix de graça: uma dose no segundo mês de vida e outra no quarto.
"quem costuma consultar o pediatra na rede privada, normalmente, prefere pagar pela vacina pentavalente rotateq", afirma celso granato, infectologista do fleury medicina e saúde.
cada dose custa cerca de r$ 150. são necessárias três doses: no segundo, quarto e sexto mês de vida.
volotão afirma que há poucos trabalhos comparando o impacto de cada uma das vacinas na diminuição das diarreias graves em crianças.
"o único país onde os dois produtos são utilizados de forma concomitante, mas em regiões diferentes, é a austrália", diz o pesquisador. "e os estudos australianos mostram que não há grande diferença do ponto de vista da saúde pública."
em 2005, o instituto butantã anunciou que pretendia produzir uma vacina pentavalente contra o rotavírus.
isaias raw, presidente do conselho técnico-científico da fundação butantã, afirma que a vacina já passou pela fase 1 dos testes clínicos. os resultados ainda serão publicados.
raw avalia que a utilização da vacina da gsk bio no programa nacional de imunizações praticamente inviabilizou a realização dos testes de fase 2 no país. "todas as crianças já recebem a rotarix", aponta o cientista. "estamos conversando com a opas para realizar os testes em outro país latino-americano", aponta o pesquisador brasileiro.
a fundação bill e melinda gates financiou parte da pesquisa do butantã. "eles também estão investindo em laboratórios de outros países - dois na índia e três na china - para produzir o mesmo produto", conta raw.
prevenção. vacina não substitui saneamento básico e higiene, sublinha volotão. ele recorda que regiões com boa infraestrutura possuem menos sorotipos circulantes do rotavírus, o que aumenta a eficácia da vacina.
o laboratório onde ele trabalha, no ioc-fiocruz, produziu boa parte dos dados brutos que fundamentaram as conclusões do artigo publicado da plos medicine.
panorama global
calcula-se que, no mundo, 1,34 milhão de crianças com menos de 5 anos morrem todos os anos de diarreia grave. o rotavírus é responsável por um terço dos casos da doença.
para entender
o rotavírus costuma causar diarreia aguda. atinge, principalmente, crianças menores de 5 anos, mas também afeta adultos, embora com menor gravidade. pode ocasionar surtos em escolas, berçários, creches e hospitais. os principais sintomas são diarreia abundante (de três a oito dias), vômito, febre alta e dores abdominais. os sintomas aparecem dois dias depois do contato com o vírus. a evolução do quadro pode causar uma desidratação grave, que, se não for tratada adequadamente, pode ser fatal.
a transmissão costuma ocorrer por contato com água, alimentos ou objetos contaminados por fezes de pessoas infectadas.
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