otelo saraiva de carvalho: "se soubesse como o país ia ficar, não fazia a revolução"
13 abril 2011
otelo saraiva de carvalho ouve todos os dias populares dizerem-lhe que o que faz falta é uma nova revolução, mas, 37 anos depois, garante que, se soubesse como o país ia ficar, não teria realizado o 25 de abril.
(nota: mandava-os todos para o campo pequeno!)
aos 75 anos, otelo mantém a boa disposição e fala da revolução dos cravos como se esta tivesse acontecido há dois dias. recorda os propósitos, enumera nomes, sabe de cor as funções de cada um dos intervenientes, é rigoroso nas memórias, embora reconheça que ainda hoje vai sabendo de contributos de anónimos que revelam, tantas décadas depois, o papel que desempenharam no golpe que deitou por terra uma ditadura de 28 anos.
essa permanente actualização tem justificado, entre outros propósitos, a sua obra literária, como o mais recente "o dia inicial", que conta a história do 25 de abril "hora a hora".
apesar de estar associado ao movimento dos "capitães de abril" e aceitar o papel que a história lhe atribuiu nesta revolução, otelo não esconde algum desânimo. ele, que se assume como um "optimista por natureza". "sou um optimista por natureza, mas é muito difícil encarar o futuro com optimismo. o nosso país não tem recursos naturais e a única riqueza que tem é o seu povo", disse, em entrevista à agência lusa.
otelo lamenta as "enormes diferenças de carácter salarial" que existem na sociedade portuguesa e vai desfiando nomes de personalidades públicas, cujo vencimento o indigna. "não posso aceitar essas diferenças. a mim, chocam-me. então e os outros? os que se levantam às 05:00 para ir trabalhar na fábrica e na lavoura e chegam ao fim do mês com uma miséria de ordenado?", questiona, sem esconder o desânimo. para este eterno capitão de abril, o que mais o desilude é "questões que considerava muito importantes no programa político do movimento das forças armadas (mfa) não terem sido cumpridas".
uma delas, que considera "crucial", era a criação de um sistema que elevasse rapidamente o nível social, económico e cultural de todo um povo que viveu 48 anos debaixo de uma ditadura". "este povo, que viveu 48 anos sob uma ditadura militar e fascista merecia mais do que dois milhões de portugueses a viverem em estado de pobreza", adiantou. esses milhões, sublinhou, significa que "não foram alcançados os objectivos" do 25 de abril.
por esta, e outras razões, otelo saraiva de carvalho garante que hoje em dia não faria a revolução, se soubesse que o país iria estar no estado em que está. "pedia a demissão de oficial do exército, nunca mais punha os pés no quartel, pois não queria assumir esta responsabilidade", frisou. otelo justifica: "o 25 de abril é feito em termos de pensamento político, com a vontade firme de mudar a situação e desenvolver rapidamente o nível económico, social e cultural do povo. isso não foi feito, ou feito muito lentamente".
"fizeram-se coisas importantes no campo da educação e da saúde, mas muito delas têm vindo a ser cortadas agora outra vez", lamentou. "não teria feito o 25 de abril se pensasse que íamos cair na situação em que estamos actualmente. teria pedido a demissão de oficial do exército e, se calhar, como muitos jovens têm feito actualmente, tinha ido para o estrangeiro", concluiu.
http://www.jornaldenegocios.pt/home.php ... &id=479221