180 anos de veículos eléctricos
para a maioria dos mortais, o que vamos abordar será novidade. assim, é de todo o interesse desmascarar a situação actual e desmistificar os paradigmas e dogmas socialmente emaranhados no córtex cerebral.
os veículos eléctricos não são um tema novo e há mais de 100 anos que o primeiro carro eléctrico foi produzido. recentemente, a chamada “electrificação do transporte” ganhou um novo destaque, sendo apresentada por alguns como, provavelmente, uma das maiores medidas disponíveis para diminuir as emissões de gases de efeito de estufa e poluição ambiental, trazendo, ao mesmo tempo, desenvolvimento económico.
segundo, o próprio primeiro ministro português, numa discussão acerca do orçamento de estado de 2010, em 10/02/2010, a primeira medida para solucionar o endividamento externo passa pela diminuição das importações. segundo ele, as importações de petróleo chegam a representar 50% das importações nacionais. vamos acreditar neste número e reagir a esta verdade absoluta, tentando ajudar os nossos governantes nesta tarefa bélica.
assim, convém perceber o que aconteceu para hoje as pessoas acreditarem piamente que o eléctrico (carro ou moto) é o futuro, quando na realidade vem do passado, mas foi electrificado pelos interesses petroleiros e, hoje, pelos da indústria automóvel, basta olhar para o tampo interior do nosso automóvel e verificar de quem são os autocolantes aí colocados.
a maioria das pessoas não sabe, mas o automóvel praticamente nasceu eléctrico. as primeiras experiências eram máquinas a vapor, mas a partir de 1830 já havia automóveis eléctricos. contudo, o seu uso era restrito devido à limitada capacidade dos motores e das baterias da época. no final do século xix, havia três opções possíveis para motorização de automóveis: a vapor, a gasolina e eléctrico. o motor eléctrico era mais eficiente e mais fácil de controlar. as primeiras corridas de automóveis eram dominadas pelos velozes eléctricos. foi um eléctrico que, pela primeira vez, bateu o recorde dos 100 km/h, mesmo antes de os aviões fazerem o mesmo.
o que aconteceu? o senhor henry ford sabe-o bem: o baixíssimo preço da gasolina na época, o petróleo começou a nascer na califórnia, fazia-se um buraco e já está. numa época em que não havia preocupações ambientais, isso foi suficiente para levar os eléctricos ao esquecimento. simplesmente a pesquisa na área foi abandonada e nenhum avanço surgiu até a década de 1960, quando, novamente por motivos ambientais, o eléctrico voltou a ser cogitado. a crise do petróleo levou a outras tentativas nas décadas de 1970 e 1980, mas nenhuma delas resultou em mudança. um paradigma estava enraizado, e a inércia social, aliada aos interesses da indústria, impediram o desenvolvimento do veículo eléctrico economicamente viável.
entre 1996 e 1999, a general motors lançou o ev1, veículo totalmente eléctrico, que era comercializado somente pelo sistema de leasing. o carro era elegante e tinha um excelente desempenho e uma autonomia bastante aceitável, inicialmente entre 90/120 km e depois com baterias de nimh. com 120/240km de autonomia e a velocidade alcançava a marca de 130 km/h se bem que limitados electronicamente pois podia atingir velocidades superiores.
por motivos desconhecidos, entre 2003 e 2004, a gm simplesmente recolheu todos os ev1 do mercado, exercendo seu direito ao final dos contratos de leasing. estes veículos foram simplesmente destruídos.
mas um facto novo surgiu. a constatação de que o aquecimento global, provocado pelo efeito estufa excessivo, resultante das emissões de co2 da nossa economia industrial, está a provocar a destruição rápida da calota polar do árctico, alterações de clima em geral, “el nino”, inundações, aumento de temperaturas, fauna e flora que desaparecem, etc…. esta verdade provocou o pânico na sociedade. uma corrida pelo automóvel e moto de emissões baixas ou mesmo nulas está em marcha. ao que tudo indica, é um movimento irreversível. a preocupação existente entre os ambientalistas é de que este movimento tenha chegado tarde demais para inverter as mudanças no clima. como o tempo entre o surgimento de uma nova tecnologia e sua popularização pode variar entre 20 e 40 anos (veja como exemplo o próprio automóvel, o avião, a televisão, o telefone, o telemóvel e o computador pessoal), encontra-mo-nos no estágio de utilização dos eléctricos que deveríamos ter iniciado há 40 anos atrás. para corrigir esta situação, preconizamos que acções concretas dos nossos governantes e da indústria devem ser tomadas no sentido de incentivar e apressar a transição.
por outro lado, podemos considerar que a tecnologia eléctrica possui mais de 170 anos e não 40. pensando assim, podemos ter uma esperança de que a mudança de paradigma se acelere e consigamos alcançá-la não em 40 ou 20 anos, mas em 5.
apresentamos abaixo os principais motivos para realizar esta mudança:
para conter a mudança climática, é necessário não somente reduzir as emissões de carbono, mas retirar grandes quantidades de carbono que já se encontram na atmosfera. o actual modelo de combustíveis fósseis não permite este ajuste;
o precioso petróleo está em vias de se esgotar ou tornar-se economicamente inviável na sua extracção. o consumo de petróleo está a crescer mais rápido do que a produção e se as economias continuarem no actual ritmo de crescimento (mesmo com a crise económica), em poucos anos a curva da produção e do consumo irão certamente cruzar-se. assim, o preço irá disparar, sendo o consumidor a pagar a factura;
num contexto económico como o nosso, fortemente dependente de energia, é inconcebível usar esta mesma energia com uma eficiência de apenas 20%, quando são possíveis 80 ou 90%.
não menciono aqui outras vantagens do ve, como a operação absolutamente silenciosa, simplicidade de manutenção, emissão zero de poluentes (o co2 não é o único poluente emitido pela queima de gasolina).
para quem se interroga de como produzir tanta energia para estes ve’s basta saber que segundo o dr. gerhard knies, um físico alemão especialista nessa matéria de geração de energia, os desertos do mundo recebem, em apenas seis horas, mais energia solar do que a sociedade humana consome num ano. mesmo com percentagens de eficiência das células fotovoltaicas nos 15%. seria energia suficiente para a auto-suficiência energética do mundo.
aliás, um estudo recente mostra que a construção de centrais de energia solar em menos de 0,3% dos desertos do norte da áfrica e do médio oriente geraria electricidade suficiente para satisfazer as necessidades locais dessas regiões e ainda as da união europeia. existem planos para se construir centrais eléctricas solares na argélia e, através de cabos de 3.000 quilómetros, fornecer 6.000 mw à alemanha. uma fundação alemã trabalha com o potencial de 100 mil mw de energia solar nos desertos citados.
veículos eléctricos são as alternativas ideais para se eliminar os impactos ambientais do sistema de transporte que utiliza combustíveis líquidos. não existe emissão de poluentes, ou seja, co2, gases e partículas que provocam danos à saúde humana e ao meio ambiente, principalmente nos centros urbanos, e podem ser recarregados directamente na rede de energia eléctrica. as baterias de iões de lítio podem carregar enquanto os seus proprietários estiverem no trabalho ou durante a noite, quando a rede de energia é subutilizada evitando, assim, muito do desperdício que hoje ocorre e não criando mais necessidade de geração de energia do que a que temos actualmente.
sendo assim, pedimos medidas concretas (para além das já preconizadas pelo governo), que permitirão a curto, médio e longo prazo resolver, em parte (porque não acreditamos em milagres, nem somos populistas), as duas questões do endividamento externo: as importações e as exportações. e para quem acredita que portugal vai no pelotão da frente, veja os exemplos práticos de outros países como a espanha, dinamarca e noruega.
portanto, como cidadãos responsáveis, queremos:
entrada, em funcionamento, até junho de 2010, de pelo menos, os 100 postos de carregamento prometidos para 2009;
apoio na compra, sem discriminação ou limitação, de marcas de veículos eléctricos (automóveis, motos, etc);
facilidade na homologação e reduzido custo de tal operação, sem discriminação, de automóveis para converter para eléctrico ou híbrido;
apoio à conversão definitiva, sem discriminação, de novos ou usados, de veículos (automóveis ou motos) para eléctricos ou híbridos. (só o custo ambiental desta operação evitará o abate prematuro de centenas de carros em óptimo estado). esse apoio resultará inequivocamente em políticas empreendedoras que fomentarão a indústria da conversão que resultará na criação de mais postos de trabalho e em exportações. vejamos os casos de países como os usa, suíça e inglaterra onde já proliferam alguns exemplos bem sucedidos.
continuação do apoio ao abate dos automóveis e motos para a compra unicamente de eléctricos ou híbridos, acelerando assim a implementação e a introdução destes no mercado e não do downsizing da indústria (pois por cada carro eléctrico que a indústria automóvel vende, tem autorização para vender 3,5 carros altamente poluidores, registada na legislação europeia), que usufrui em muito de apoios para esse efeito. esta medida irá reduzir drasticamente o apoio na compra de carros puramente de combustão, que visa apenas ajudar a indústria automóvel. com essa medida a indústria deverá acelerar em muito o desenvolvimento do eléctrico. não faz sentido apoiar carros poluidores. mais uma vez, verificamos que a espanha sustenta de uma forma concreta e eficaz a mobilidade através de apoios de compra de motos eléctricas, que, neste momento estão mais à frente do que o ramo automóvel, com consumos de 0,40 cêntimos por cada 100kms.
isenção, até 2020, de qualquer imposto: selo, isv, etc…
redução do iva para 5%, na compra de qualquer ve e da sua respectiva manutenção (que é extremamente reduzida).
isenção de portagens e de cobrança de parqueamento, à semelhança da noruega e espanha, nomeadamente madrid, que isenta de pagamento de parqueamento os ve’s.
parques de estacionamento com lugares exclusivos para eléctricos
permitir acesso às faixas bus aos eléctricos.
todas estas medidas contribuem para a redução clara da nossa dependência externa, de combustíveis fósseis, e para a melhoria da nossa economia através da criação de emprego na nova indústria de reconversão de veículos bem como para a redução clara da divida externa e com todas as vantagens associadas. com essa melhoria conseguiremos certamente, na vertente económica da questão, justificar o gasto dos apoios e superar claramente a redução dos impostos sobre os produtos petrolíferos que daí advirá.
não existe razão para que não o façamos, não é difícil e muito menos impossível. falta apenas vontade politica. vamos voltar a ser pioneiros como no séc. xv ou como diria fernando pessoa:
“tudo é disperso, nada é inteiro.
ó portugal, hoje és nevoeiro…
é a hora!“