Re: Carta à Deco
Enviado: segunda jun 14, 2010 11:08 am
já agora aqui fica a carta que havia mandado à deco:
caros srs.
venho por este meio manifestar o meu repúdio contra a displicência e falta de profissionalismo contida no teste “scooters”, efectuado e publicado na vossa revista 314. eu tenho uma vectrix (uma eléctrica que ficou na ultima posição do vosso teste) e o meu conhecimento próximo do assunto diz-me que tiveram falhas muito graves, que induzem o consumidor num grave erro.
falhas graves:
- quanto valem os valores ambientais na vossa fórmula? parece-me que muito pouco… infelizmente a mentalidade retrógrada que está a conduzir este planeta a uma catástrofe nunca antes sentida pela raça humana, está bem presente no vosso discurso;
- como se diz na gíria popular, “não se deve misturar alhos com bugalhos”, mas diria eu que, quando se o fizer, ao menos que se tenha a preocupação de distinguir características que não são directamente comparáveis, mas tal não aconteceu convosco;
- só o total desconhecimento das características de uma eléctrica os faz cometer o erro de a incluir na categoria de mota de estrada. efectivamente, a tecnologia eléctrica ainda não o permite devido às pequenas autonomias e para a “estrada” subentende-se percorrer de longas distâncias. na prática esta mota faz em média 75km com uma carga na cidade de lisboa e arredores. os 40km só acontecem se for sempre à velocidade máxima (100km/h), o que obviamente só pode acontecer em auto-estrada ou via rápida.
- quanto à travagem, a brembo é apenas uma da melhores marcas que existe e equipa esta mota, porém usualmente nem se recorre ao sistema tradicional de travagem pois a excelente travagem regenerativa (efectuada com o motor), confere uma segurança superior e é de longe muito melhor que qualquer outro presente nos motociclos tradicionais. como é possível dar uma nota de indiferença quando o sistema é em muito superior aos demais?
- o cálculo da recuperação do investimento está totalmente errado porque não entra em consideração com o facto de esta mota não precisar praticamente de manutenção, só pneus à partida e nem sequer os travões porque são muito pouco utilizados devido ao sistema de travagem regenerativa. pelas minhas contas serão necessários cerca de 80.000km para a recuperação do investimento, um valor muito longe dos “vossos 132.000km”. eu gasto cerca de 5€ de electricidade por cada 1000km que faço;
- a justificação de que a electricidade é gerada a partir de centrais de carvão e de gás é no mínimo… patética. na produção nacional actual as gerações de electricidade a partir de origens poluentes é apenas de 16% (carvão, gás e nuclear). porém acontece, que quem usa eléctricos, geralmente fá-lo no período do vazio e não só paga cerca de metade como grande parte da energia produzida nesse período provém da fonte eólica.
é de todo lamentável a tentativa de minimização do factor ecológico (que é o principal objectivo do produto) no vosso artigo, não só pelo facto de quase nada pesar na vossa fórmula como as alusões patéticas e infundadas obre a proveniência da electricidade. mesmo que assim fosse, já pensaram sobre as emissões envolvidas no transporte e produção de petróleo? não me digam que pensam que a responsabilidade ambiental de emissão de co2 resulta apenas na queima directa do combustível!
nem tudo são rosas e a tecnologia do eléctrico detém ainda muitos problemas (embora nenhum dos quais tenha sido abordado no vosso artigo), mas entendo que o vosso levantamento foi cientificamente mal preparado, tendenciosamente economicista e muito pouco verde. é caso para perguntar se a defesa do consumidor não se deveria preocupar mais com a qualidade de vida (em termos de poluição) nas cidades…
se a minha opinião contar para alguma coisa, asseguro que depois de experimentar um eléctrico, jamais se volta a considerar como solução principal, um veículo de combustão interna. fico grato pela vossa atenção e espero que a esta critica não seja metida directamente no caixote do lixo. temo que tal aconteça por ousar criticar aqueles que mais o costumam fazer.