banca perde mil milhões nos fundos de pensões
queda da bolsa pode abrir um novo rombo nas contas.
maria ana barroso
o mercado de capitais não tem sido gentil com os bancos e o mesmo está a acontecer com os seus fundos de pensões. o santander, numa nota de ‘research’, alerta para o impacto da queda das bolsas nas carteiras de activos dos fundos de pensões. o banco estima uma desvalorização de cerca de 10% das carteiras de cada um dos três maiores bancos cotados - bcp, bes e bpi -, o correspondente a uma perda global de mil milhões de euros.
as maiores perdas deverão ser verificadas no bcp: cerca de 558 milhões. segue-se o bpi, com 250 milhões de perda avançada no segundo trimestre. quanto ao bes, se a carteira do fundo de pensões do bes tiver caído 10% no semestre, esta queda traduz-se em 234 milhões de desvalorização dos activos.
o santander prevê esta queda de 10% no valor das carteiras dos fundos dos bancos, tendo em conta a descida das bolsas em portugal e no resto da europa no semestre (25% a 30%) e o facto de 30% a 40% das carteiras de fundos estarem normalmente aplicadas em acções. o impacto da descida das bolsas será maior ou menor consoante o portfólio de investimento em acções de cada instituição. essa informação não está, no entanto, disponível. sabe-se, por exemplo, que o bes, graças aos investimentos no bradesco, tem compensado parte do impacto da desvalorização de outros investimentos, quer na carteira do próprio banco quer no fundo de pensões. o resultado final desse equilíbrio só será conhecido dia 30.
os bancos têm vindo a vender ao seu fundo de pensões algumas participações com o objectivo de reduzirem a exposição à bolsa. com as novas regras de contabilidade (ias), a banca tem de contabilizar os activos que possui pelo seu valor de mercado (‘fair-value’), o que, em épocas de queda bolsista, consome capital aos bancos.
só que, a partir de determinada dimensão de desvalorização das carteiras de activos dos fundos de pensões, as perdas também terão de ser levadas ao core capital tier 1 ( fundos próprios de base, deduzidos das acções preferenciais), afectando portanto o rácio core tier 1.
cada fundo de pensão tem um pressuposto de valorização anual da carteira de activos. quando essa estimativa de aumento do valor desses investimentos não acontece, há um desvio negativo.
o banco de portugal permite que os bancos tenham um desvio negativo dos seus fundos que não ultrapasse o equivalente a 10% do valor das carteiras de activos ou das responsabilidades (consoante o que for maior) desses mesmos fundos, designado por “corredor”. tudo o que ultrapasse essa margem, tem de ser levado a capital, penalizando o rácio de ‘core tier 1’ dos bancos.
os três bancos esgotaram já a margem concedida pelo banco de portugal. “qualquer desvio negativo adicional tem de ser directamente deduzido no core capital”, diz o santander. também a casa de investimento internacional fox-pitt kelton, numa análise recente feita aos bancos do psi20, alerta para os impactos negativos nos rácios dos bancos das quedas bolsistas.
o bcp só terá de se preocupar no final do ano, uma vez que tem definido reflectir apenas anualmente o impacto dos desvios (negativos ou positivos) na rendibilidade do seu fundo.
já o bpi fá-lo trimestralmente e o bes semestralmente. o santander diz, no entanto, que é altamente provável que estes proponham aos seus auditores uma redução da taxa de valorização dos activos ou aumentem a taxa de desconto das responsabilidades e assim reduzem o desvio negativo.
onde investem os fundos de pensões dos três bancos
fundo do bcp exposto à teixeira duarte e edp
a carteira de investimentos em acções do fundo de pensões inclui participações, nomeadamente, na edp, teixeira duarte, cimpor, banca intesa e sabadell. alguns destes investimentos resultaram da transferência de activos que antes eram directamente detidos pelo bcp. em 2006, por exemplo, foram transferidos para o fundo de pensões do grupo as participações na edp e no sabadell. o fundo de pensões do bcp está também exposto à cotação do próprio banco, onde tem pouco mais de 1,6% de participação, tendo em conta os últimos dados disponíveis.
bes detém acções da pt, zon e bradesco
o fundo de pensões do bes tem investimentos em importantes cotadas nacionais. é o caso da portugal telecom e, mais recentemente, da zon multimédia, depois do ‘spin-off’ do grupo de telecomunicações. esta última tem registado fortes desvalorizações em bolsa desde o início do ano. a contrabalançar está a participação detida, por exemplo, no bradesco e bradespar, ‘holding’ do grupo brasileiro para as actividades não financeiras. como os bancos não são obrigados a dar conta da carteira dos seus fundos, não se conhece a totalidade dos investimentos do fundo do bes.
fundo do bpi investe em bcp, galp e cofina
ao contrário do bcp, que já não tem acções do banco bpi via fundo, o fundo de pensões do bpi tem ainda 0,372% do bcp. o banco liderado por fernando ulrich tem vindo, no entanto, a reduzir a posição do fundo de pensões, que já chegou a ser superior a 2%. entre os investimentos que se conhecem do fundo de pensões do banco bpi está ainda uma participação na cofina e na galp energia. o santander chama a atenção para o facto de, dos três bancos do psi20, ser este aquele em que é maior o peso dos activos do fundo face ao ‘core capital tier 1’ do banco.
os três casos
- o fundo de pensões do bcp contabilizava já, no final de 2007, 1.353 milhões de euros de desvio negativo na sua carteira de activos, face a um pressuposto de valorização anual de 5,5%. destes, 765 milhões estavam fora do “corredor” permitido pelo banco de portugal e foram contabilizados no capital do banco. o bcp fez entretanto um aumento de capital.
- o fundo do bes terminou o ano passado com 301 milhões de desvio negativo, face à estimativa de valorização anual de 5,25%, dos quais 82 milhões estavam fora do “corredor” e tiveram de ser retirados ao capital.
- o fundo de pensões do bpi registou, no final do primeiro trimestre, 286 milhões de desvio negativo face a 7,5% de pressuposto de valorização, dos quais 36 milhões estavam fora do “corredor” e foram, por isso, reflectidos no capital do banco; a instituição realizou entretanto um aumento de capital.
http://diarioeconomico.sapo.pt/edicion/ ... 48615.html
isto é o que acontece a quem quer o mundo só para si... é o que irá acontecer com o petróleo e só espero que seja já