adiar gravidez expõe mulher a miomas
04 de maio de 2011
médicos dizem que tumor atinge até 80% das mulheres e é a principal causa da retirada de útero
ao adiarem a gravidez para depois dos 35 anos, as mulheres se tornam mais vulneráveis ao surgimento de miomas no útero, que atingem até 80% da população feminina, de acordo com os médicos. só no hospital das clínicas da faculdade de medicina da usp, são atendidas cerca de 400 mulheres por mês com a doença. esse tipo de tumor, embora benigno, é o principal responsável pelas cirurgias de retirada do útero (histerectomia), que já está entre os procedimentos mais comuns da área ginecológica e impossibilita gestações posteriores.
rosana, de 42 anos, nunca engravidou, não pretende ter filhos e descobriu dois miomas há três anos
"hoje, se fala muito mais em mioma porque as mulheres começam a vida reprodutiva mais tarde", diz o ginecologista e obstetra alberto d´áuria, do hospital e maternidade santa joana. segundo ele, a gravidez é o único fator reconhecidamente protetor contra a doença. isso porque o mioma é "alimentado" pelo hormônio estrógeno e inibido pela progesterona. "durante a gestação, a produção aumentada de progesterona durante 14 meses atua como um tratamento suficiente para amansar e acalmar as células que estão na iminência de se multiplicar e se transformar em mioma", completa o especialista.
cerca de 25% das mulheres com mioma sofrem com os sintomas da doença, caracterizados por dor, sangramento e infertilidade. nesses casos, o tratamento do tumor pode ser de várias formas (veja quadro acima): há opções clínicas, com a administração de remédios que minimizam os sintomas, mas apenas a técnica cirúrgica é capaz de impedir a reincidência da doença, afirma o médico nilo bozzini, responsável pelo ambulatório de mioma uterino do hc. "a histerectomia é uma das alternativas mais eficazes", diz. no hc, por exemplo, entre 50% e 60% das pacientes passam pelo procedimento cirúrgico.
a assistente administrativa rosana monteiro, de 42 anos, descobriu ter dois miomas mas ainda não sabe qual tratamento irá adotar: histerectomia ou laparoscopia. "como não pretendo ter filhos, eu tiraria tudo. mas estou com dúvidas porque tem gente que diz que tirar o útero não é bom para a saúde da mulher."
o ultrassom mais recente feito por rosana apontava que os miomas já estavam com quase 10 cm. ela lembra que, no início do quadro, há três anos, o problema chegou a ser confundido com outras doenças. "sinto muita dor e, a princípio, achei que era por causa de pedras nos rins que eu costumava ter", conta. por causas das dores, ela diz que vive à base de analgésicos cinco dias por mês, sempre antes do período menstrual.
obesidade e hipertensão. a doença tem forte componente genético, mas há alguns outros fatores de risco - além da gravidez tardia - que são observados na prática clínica: obesidade e hipertensão estão entre eles, segundo o ginecologista eduardo zlotnik, do hospital israelita albert einstein. além disso, mulheres negras são mais suscetíveis ao problema se comparadas às brancas e asiáticas.
"infelizmente, não sabemos por que uma célula começa a se multiplicar de forma desordenada. é uma doença hormônio-dependente e vemos que mulheres que usam anticoncepcional oral correm menos riscos, mas não conhecemos uma ação preventiva forte", diz o ginecologista rodrigo aquino castro, professor da universidade federal de são paulo (unifesp).
icesp tem técnica experimental para destruir tumores
no mês passado, o jt revelou que o instituto do câncer do estado de são paulo (icesp) começou a testar um novo equipamento capaz de destruir tumores por meio de ondas de ultrassom superpotentes. o primeiro tipo de tumor a ser tratado experimentalmente pelo high intense focus ultrassound (hifu) foi o mioma. no momento do anúncio, o equipamento já tinha sido usado para tratar miomas de seis mulheres com sucesso. a vantagem da técnica é o fato de ser pouco invasiva: não há necessidade de cortes e o tumor é eliminado sem a danificação de tecidos adjacentes.
o hifu combina a ressonância magnética, que permite localizar o tumor com precisão, com um feixe de ultrassom cerca de 20 mil vezes mais potente do que o usado em exames de imagem. esse feixe é direcionado apenas para o tumor e a temperatura no local chega a 80ºc. assim, o tumor é queimado sem danificar os demais tecidos.
a técnica ainda não está disponível em larga escala, sendo usada experimentalmente em pacientes selecionados pelo icesp.
pingue-pongue: nilo bozzini - ginecologista responsável pelo ambulatório de mioma uterino do hospital das clínicas - ‘maioria não provoca sintomas’
como o mioma uterino costuma ser diagnosticado?
apesar de 80% das mulheres terem mioma uterino, a maioria é assintomática, ou seja, sem sintomas. elas acabam descobrindo o problema em exames ginecológicos de rotina ou, então, procuram o médico por causa de sangramento, dor, aumento do volume abdominal ou infertilidade.
quais são as alternativas de tratamento para a doença?
a maioria dos miomas não requer tratamento específico. para os casos que pedem tratamento, o que resolve tudo é a retirada do útero, mas é uma técnica que não se aplica a todo mundo. uma jovem que deseja gravidez deve ser submetida a um tratamento conservador. já para uma paciente que tem prole determinada, a histerectomia, ainda que muitos critiquem, é um tratamento eficaz que não compromete a sexualidade nem a feminilidade da paciente. os tratamentos cirúrgicos conservadores são a miomectomia, em que se retira só o mioma, e duas técnicas novas: a embolização e a ablação por ressonância magnética. em alguns casos, anti-inflamatórios podem ser usados para diminuir sangramento e dores.
no caso do ambulatório do hc, que parcela faz a histerectomia? no hc costumam cair quadros clínicos difíceis. das pacientes que recebemos, de 50 a 60% vão para o tratamento mais radical, a histerectomia. ainda que existam tratamentos mais novos, que constituem alternativas, a retirada do útero ainda é uma das técnicas mais utilizadas.
a histerectomia oferece riscos?
como em qualquer cirurgia, existem riscos, mas hoje a execução do procedimento é tecnicamente avançada. não existe tratamento único e não existe o melhor tratamento. existe o melhor tratamento para cada pessoa, considerando o quadro, a idade e as circunstâncias de vida.
tratamentos
clínico
anti-inflamatórios: minimizam dores e sangramentos, mas não diminuem o mioma
análogos do gnrh (hormônio): simulam a menopausa, diminuindo mioma e do útero. mas não é um tratamento definitivo
cirúrgico
histerectomia: retirada total do útero, sem risco de reincidência
miomectomia: retirada do mioma por meio de técnicas diversas, mas há risco de retorno dos miomas
embolização: com um cateter, são inseridas partículas pela artéria que nutre o mioma, que morre com o fim do fluxo de sangue